Há dores que você consegue contar…

Existem dores que conseguimos transformar em palavras. Conseguimos dizer quando começaram, quem estava envolvido, o que aconteceu e até explicar como nos sentimos. Mas existem outras que parecem não encontrar palavras. Elas permanecem silenciosas, escondidas atrás de um “está tudo bem”, enquanto o corpo continua reagindo.

A mente tenta seguir. A rotina continua. A pessoa trabalha, cuida da casa, resolve problemas, sorri, conversa e aparentemente mantém a vida funcionando, mas o corpo pode começar a dar sinais. Tensão muscular, dificuldade para dormir, cansaço persistente, aperto no peito, taquicardia, alterações no apetite, dores recorrentes, sensação constante de alerta.

Isso não significa que todo sintoma físico tenha origem emocional. Sintomas persistentes ou intensos precisam ser avaliados por profissionais de saúde. No entanto, sabemos que experiências emocionais e estados prolongados de estresse podem influenciar profundamente o funcionamento do organismo.

Quando você diz “já passou”, mas ainda reage como se estivesse acontecendo

Uma experiência pode ter terminado no calendário e ainda permanecer emocionalmente ativa. Uma rejeição aconteceu há anos. Um relacionamento terminou. Uma perda ficou no passado. Uma infância difícil acabou. Uma humilhação não voltou a acontecer. E, mesmo assim, determinadas situações atuais despertam reações intensas. Uma demora na resposta de uma mensagem provoca ansiedade. Uma crítica parece muito maior do que deveria. Um afastamento desperta medo de abandono. Um conflito faz surgir vontade de fugir, se calar ou agradar rapidamente para evitar que alguém vá embora. É como se alguma parte de você dissesse:

“Eu conheço essa sensação. Já sofri aqui antes.”

É nesse ponto que precisamos compreender uma diferença, importante: lembrar não acontece apenas através de pensamentos. Também podemos reagir emocional e fisiologicamente diante daquilo que o cérebro interpreta como ameaça. O corpo não está inventando a sua dor. Durante períodos prolongados de medo, ansiedade, tensão ou insegurança, o organismo mobiliza sistemas relacionados à resposta ao estresse. Isso é necessário para nossa sobrevivência. O problema aparece quando o estado de alerta deixa de ser uma resposta pontual e passa a ocupar grande parte da vida. A pessoa pode se acostumar tanto a viver em tensão que começa a considerar aquele estado normal. Ela não percebe mais que está contraindo os músculos. Não percebe que está sempre esperando alguma coisa ruim acontecer. Não percebe o quanto está cansada. Não percebe que descansa fisicamente, mas continua emocionalmente em vigilância. O corpo pode estar sinalizando uma sobrecarga que ainda precisa ser compreendida.

Quanto da sua força atual nasceu da liberdade — e quanto nasceu da necessidade de sobreviver?

Quando a dor entra na “caverna emocional”

Gosto de utilizar a metáfora da caverna emocional. Imagine que algumas experiências difíceis foram sendo colocadas dentro dessa caverna. Rejeições. Abandonos. Humilhações. Perdas. Culpas. Medos. Palavras que feriram. Relacionamentos que deixaram marcas.

Para continuar vivendo, você fechou a entrada e seguiu em frente. Mas fechar a caverna não significa necessariamente que tudo o que estava lá dentro deixou de existir. Às vezes, basta uma situação no presente tocar uma antiga ferida para que emoções que pareciam esquecidas reapareçam. Por isso, algumas reações parecem desproporcionais ao acontecimento atual. Talvez você não esteja reagindo apenas ao que aconteceu hoje.

Talvez alguma parte dessa reação também esteja conectada ao que aquilo representa na sua história.

Durante muito tempo, você pode ter aprendido a perguntar: “Como faço para aguentar mais?” Talvez exista uma pergunta mais importante: “Por que estou precisando aguentar tanto?”

A psicoterapia pode oferecer um espaço para reconhecer padrões, compreender gatilhos, nomear emoções, elaborar experiências difíceis e desenvolver novas formas de responder ao presente. Não se trata de apagar a história.

Trata-se de impedir que aquilo que aconteceu continue determinando silenciosamente a maneira como você vive hoje. Porque existem dores que conseguimos contar.  Existem dores que ainda não conseguimos nomear. E existem aquelas que aparecem na maneira como respiramos, dormimos, nos relacionamos, reagimos e vivemos.

Talvez o primeiro movimento de cuidado seja justamente este: parar de perguntar apenas “o que há de errado comigo?” e começar a perguntar “o que a minha história está tentando me mostrar?” Aquilo que aconteceu com você pode explicar algumas das suas feridas.  Mas não precisa escrever o restante da sua história.

Psicóloga Socorro Castro
CRP 22/01846
Psicologia Clínica | Neuropsicologia
Método C.R.I.S.T.A.L® – Reestruturação do Eu

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